Prefácio

Um bom vinho costuma ser repentinamente despertado da escuridão onde jaz adormecido para eternizar momentos. Assim, desperta este “saboroso aperitivo alegrador do figo humano”, em sua segunda edição, para eternizar um momento de vida, no passado, mas que ainda é presente na lembrança dos costumes e das pessoas que viveram em torno do Vão d'Areia, um dos especialíssmos lugarejos da cidade maranhense de Pastos Bons.

A obra, O Vão d'Areia, é bem mais que uma coleção de causos, nascida de narrativas fiéis, fielmente transcritas para o papel. Sua definição se entrelaça com o princípio de uma trajetória de vida, onde se iniciou a formação de valores éticos, de princípios de amizade, fidelidade e respeito.

"Veja, caro leitor, como é saboroso conhecer o Vão, até antes de vê-lo de perto.” Cada passagem nos transmite um pouco do sabor das coisas simples e valorosas que muitas vezes são levadas ao esquecimento, durante nossas vidas compromissadas, afastando-nos da essência de nossas almas.

“Vejo-o ao vivo” enaltece o dom da lembrança que valoriza uma existência. Não se tira vida de onde não se tem. Esta pérola traz uma narrativa sinceramente presente que parece transpassar, como uma lâmina, as cortinas espessas do tempo, adocicando o presente instante de quem a tem ante os olhos.

O querido autor “sabe tudo de geografia”, mas não se compromete com a geografia do lugar, nem tampouco com pormenores temporais. O tempo que ladeia a narrativa não tem compromisso com a seqüência dos fatos. Aliás, o tempo sempre nos convida à reflexão, especialmente quando se ganha um afeto muito grande pelas pessoas do Vão. Um leitor desavisado provavelmente imaginaria que aqueles simpáticos moradores não mais existam, nem suas prosas, seus costumes, suas danças, suas rezas e ladainhas. Não é verdade. Estão todos lá. O Vão transcende os rótulos costumeiros de tempo: é eternamente presente.

As pessoas ainda estão lá, em suas atividades, em seus cotidianos. A sanfona ainda mistura o suor à poeira dos terreiros. As estradas ainda percorrem trilhas. O galo ainda desperta o sol no quintal. A banco da praça ainda se enamora da cancela. A prosa de final de tarde ainda põe o sol no horizonte.

O Vão continua na lembrança de todos os que viveram aquela época ou que ainda o vêem "ao vivo". Sempre haverá um caminho de roça, um mangueiral, um peba, um cavalo para ser "quebrado".

Fomos alcançados por O Vão d'Areia graças ao exemplo de vida de quem o testemunhou. Nós, filhos orgulhosos do caro escritor, pedimos a Deus que tenhamos também tantos causos para contar aos nossos filhos e, estes, aos filhos de nossos filhos. Lá, algum dia, em algum lugar, a lembrança reviverá o Vão.

Agora, reiteramos o convite:

 

"Vamos, caro leitor, vamos rever o Vão...".